segunda-feira, 25 de junho de 2012

Tchau!

A menina acordou com o desejo de voar. E assim fez. E como borboleta que tem vida curta saltou para o céu e migrou. E foi entre as nuvens (nunca uma borboleta tinha voado tão alto) que olhou seu feito, abaixo, e sorriu. A menina que ri sorriu pela última vez antes de partir.

E aqui me despeço desse blog companheiro e da menina que um dia eu fui. A menina que ri nunca morrerá. Quem sabe entre um vôo e outro, acordando da preguiça ela retorne? A menina manda beijos, carinhos, amores, e diz a todos que a acompanham que sejam felizes na vida. Queiram ser filmes, doces, rabiscos, carinhos em lugares que estão coçando. Que sussurrem e sorriam. E que o choro, quando surgir, lave a alma.

Grande beijo.

Estou aqui:

www.paulinhabraun.blogspot.com


domingo, 11 de setembro de 2011

Bandaids e pipas.


Obrigada pai, por me ensinar a pisar com os pés descalços.




"Coleções servem pra juntar pó” disse o pai da menina. A menina colecionava bandaids. De todos os formatos, cores, tamanhos. Tinha de bolinhas, de coruja, de listras verdes e vermelhas. “Para estancar todos os tipos de dor” dizia.

Menina tinha os pés de fora, pisava descalça em gramados verdes, corria sobre areias quentes até levantar a maior tempestade do maior deserto que existe no mundo. Menina nadava como se peixes precisassem aprender. Construía castelos imensos de areia. Todos os dias! “Pra nunca enjoar, pra sempre morar em um lugar diferente”. Papai olhava menina preocupado com um futuro que era só amanhã. "Não perca minha filha disso tudo o chão que te falta aos pés". “É só amanhã papai!!!”

"Amanhã já chegou minha filha querida”. E como num anoitecer acelerado, manhã fez-se orvalhada e fria. Menina de cabelos longos, fechava o sapato como quem fecha um ciclo. Menina saiu de cabelos amarrados (já não sentia o vento de vendaval no rosto queimado levemente pelo sol), pasta sob o suvaco (o mesmo que sentia as cócegas exageradas do pai), chave do carro nas mãos ( não subia mais até a lua, carruagem que a levaria até a porta do castelo daquele dia).

Menina cresceu.

A coleção de bandaids agora tinha como morada uma latinha velha e enferrujada com pipas coloridas na tampa. A caixinha cheia de pó pousava nas mãos envelhecidas do pai. Menina olhava o relógio, desesperada tentava segurar um pouco mais o tempo. “Atrasada, tenho reunião” “Por que a pressa? Fica hoje minha filha” "Não posso” ela dizia. E nunca podia.

Beijo na testa e um "se cuida" cheio de perfume. Pai ouvia “Blowin ‘In the wind” , velha música do Bob Dylan. Segurava a velha caixinha. Olhava a coleção como quem vê um velho album de retratos. Pai derrama sobre o bandaid de flores azuis seu ultimo suspiro e leva consigo tudo o que era a menina. De carruagem sobe a rampa do castelo. Pisa na grama, solta uma pipa e sai voando com os peixes. Sobrevoa o escritório (cela) da menina. Joga da caixinha todos os bandaids (pra estancar a dor, lembra?). Grita: “Urrul, puta que o pariu”.

Chove. Menina ri. Menina segura com a ponta dos dedos o bandaid de flores azuis. Menina chora.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Feliz Ano Novo




Nada de esperar. O segundo seguinte é sempre tão rápido quanto o que passou. A menina sorria enquanto via todos aqueles pássaros tão perto do sorriso daquele que está ao lado. E a frase mais bonita ela ouvia. Sim, disse em meio ao molhado do rosto que não continha as batidas fortes do coração. Sim. Aceito viver feliz todos os segundos que espero pulsando, aceito as lágrimas cobertas de amor, aceito os riscos de errar as receitas que elaboro, aceito os desafios dos sabores deliciosos dos vários cafés nespresso da cozinha, aceito as delícias de teus braços longos , teus carinhos ao fim do dia nos pés meus, tão cansados, aceito. Aceito viver como a criança que eu fui contando nos dedos quantos anos eu teria no ano 2000. Já se passaram 10. Aceito viver aqui, perto do mar. Aceito as diferenças, as qualidades, o carinho que faço com meus dedos entre teus fios. Aceito tudo. Eu topo. Já é.

De todas as coisas lindas criadas no mundo, de todos os bons sentimentos, que o amor seja sempre a mais humana. Essa sucessão de segundos que insiste em não parar (mesmo nos momentos que pedimos ao tudo ‘pára aqui, só um pouquinho’) é o que aperta entre as costelas da menina que ri. Quisera nunca ter tido medo da felicidade.

Gritava junto aos fogos da virada. Ria, olhava as ondas batendo nas pedras, brindava à alegria, sentia o vento na palma da mão, a água molhando o cabelo, os músculos contraindo com o sorriso, o pescoço relaxado, os olhos fechados, e o abraço silencioso, tenro, vivo. “Eu te amo” ele dizia. E a menina, sem medo, repetia.

Feliz ano Novo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os olhos da menina (pela menina que chora).


Se você sorrir ao passar e disser “tudo bem”, eu saberei que não está.
Se você der as mãos pra mim, limpas e lavadas, eu saberei o que se esconde sob sua pele.
Ao dizer-me “Bom dia” eu responderei “boa tarde” pois estarei à sua frente.
Se mentir for preciso, eu responderei com a verdade e esta talvez lhe doa.
Se receber um soco no estômago, nada farei, meu olhar te responderá como a pior agressão. Sua dor será maior.
E se me abraçares, estarei de olhos abertos olhando sobre seu ombro, pra dentro de você.
Porque eu sou como a obra que está no canto esquerdo da galeria e te provoco emoções fortes, porém sutis. Não sabes por qual entranha eu entro, simplesmente estou. E se de mim desviares os olhos e em seguida acenderes um cigarro, pode ter certeza que este será o fim. Tenho um raio dentro de mim. Tenho o mundo como uma página de um livro, fogo que arde e arrebenta ao universo. Eu sou, simplesmente. E nada além disso fará qualquer sentido.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Nossa paz. (Dedicado a Jeferson Miranda e Mateus, meu amor)



Hoje vejo um céu nublado. Nada de tristeza apenas a beleza da ausência da chuva. Caminho pelas ruas como se fosse poesia. Sorrio pra um homem que me entrega uma chave, reparo na blusa estourando um botão. Perco-me “pra frente ou pra trás” sigo. Vejo duas velhinhas saboreando um frango a passarinho, como se não fosse um frango, podia ser pipoca, mas o momento sorria como um domingo qualquer em um boteco regado a coca cola. Tão simples ser feliz, tão misterioso também. A gente é no momento em que tira a pele queimadinha da borda antes da mordida. Sigo olhando mais pra cima do que pra baixo, e vejo na padaria o fim da tarde que se abria, no momento em que a atendente embrulhava o pãozinho (tomara que esteja quentinho, já imagino o café com leite e a manteiga derretendo no cantinho da mordida. Tomara também que não caia no chão, expectativa interrompida ‘ainda bem que tem mais pão’).
No mercado o chocolate granulado, pedaços doces pequeninos que juntos tornam-se o melhor do bolo, do brigadeiro. A prateleira parecia mais colorida, o cheiro parecia transpassar do saquinho. “Eu queria te sorrir” pensei. Caminhei. E finalmente, a chave que abriu o portão do apartamento, era como se estivesses por lá, me servindo café e contando tuas histórias. Acolhi-me, lembrei do teu sorriso quando te conheci, da tua infantilidade bonita, do futuro que espero (mesmo olhando no presente a tua palma da mão e teu olhar quando está do jeito que eu mais gosto), e do teu coração tão perdido se achando em cada manhã do meu lado. A chave que me entregaram na rua, é só uma chave velha com um barbante comprido (do meu coração, disse alguém num texto engraçado, por ser piegas, e bonito por parecer real).

A minha chave (hoje igual a tua) é de te encontrar no fim do dia, é de te esperar de peito aberto (e de saudade), é de abrir o melhor que tenho em mim. Chorando ou sorrindo, fazendo manha ou fazendo bico, arrumada ou esculachada, cansada ou disposta, tanto faz. Como no céu de quem espera o sol do dia seguinte, nossa chuva é sempre nossa paz.

domingo, 31 de maio de 2009

A Outra Parte.





Pronta para saltar ao primeiro gesto. Por um momento fecha os olhos e ouve: música e silêncio maiores do que palavras podem dizer no ato de um precipício. Até que, num gesto súbito e natural, ele lhe aperta o braço. Já está nua e sente mais que cheiro e calor, mais que beijo e pele. Sente sem saber explicar, como se fosse apenas estar ali, dentre bananeiras, precipício e rua movimentada. Sente o assombro da pedra desmontando embaixo dos pés descalços, a mão que a segura firme pelos cabelos e a voz que lhe sussurra no ouvido esquerdo. Ela estica um pouco o pescoço para que exale também seu cheiro. Ouve: “Te atira”. “Me solta então, me deixa”. “Medo de que te arrependas, que te transformes após a queda”. “Me deixa o medo é meu e me sinto livre”, “te entrega”, “me solta”, “te atira”, “me permite então”, “voa”, “seguras a minha mão com teus braços longos, mas solta o meu cabelo pra que eu possa, com o vento, nua, solta, livre, sem nenhuma carcaça, asas cortadas de borboleta semi-morta, me atirar, desmedida”. “Por quê”? “Eu preciso”. “Por que?” “Quero gritar” “Grita!”, “me deixa, eu me atiro”.

Ele a solta. Olhos nos olhos “até breve”. Volta ainda pela necessidade de um último abraço, beijo contido, “eu te amo”, pensa, e se atira, linda, braços abertos, plena sem saber voar.