sexta-feira, 6 de março de 2009






Do escuro fiz meu céu. Fecho os olhos e não vejo estrelas. Fujo. Estranho perceber a solidão. Limpo da face o sorriso e viro de lado pra que não me vejas chorar. Não choro por ti. Não choro por nada. Odeio justificar. Não me pergunte e não me segure pelo braço. A porta é logo ali. Caminho até o portão sem pisar no chão. Duro demais para enfrentar a sola do pé esfolada. Grito sem palavras, falo sem nexo, finjo existir. Toco as grades da cerca como se fossem maleáveis a ponto de me deixar fugir. Céu. Estúpido sol. Estúpido dia azul.


Entre quatro paredes arranco a carcaça e fico. Só, suja, nua. Decoro frases, fumo um cigarro e como o último pedaço de bolo da geladeira. Na parede quadros. Dalí. No chão farelos. Formigas. No peito dor. Você.


Dias passam, noites passam, respiro e espero tudo parar. Como demora, preencho a existência como o que de mais ralo acho por aqui. Piadas nerds, romances baratos, filmes desprezíveis e comida congelada. Não entendo nada, tanto faz entender. Do muro que levantei nem cimento comprei. Nada está aqui. Eu não estou aqui. E minha alma é todo o pranto de decadência do mundo.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Memórias de uma carta extraviada.


Se as lágrimas separam nossos lábios grito ao mundo que se recolha em um grão de areia. Ouso enviar-te pragas, trovões, tempestades, tapas e ofensas. Vejo uma borboleta morta ao lado do pneu parado. Vejo-te chorar, te corto com os dentes até chegar ao teu mais fundo pesar. Eu grito. Eu tenho medo. Eu me perco dos sentidos e caminho. Dou as mãos ao tempo esperando uma resposta, a resposta não vem. Escuto-te como se não ouvisse, te toco como se não fosses meu, te beijo procurando nos teus cantos algum sentido. Mas não se machuque. Eu pouso delicados os dedos na tua face buscando um sorriso. O céu se abre quando sorris. Eu deito ao teu lado buscando o teu calor, me entrego aos teus longos braços e choro baixinho para que não percebas. Eu te amo. E se a vontade dos nossos corpos e, acima de tudo, das nossas almas for maior que a dor, que seja puro, novamente, o nosso amor.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Alagado.
















Amigos, leitores, blogueiros!

Minha cidade está destruída, assim como boa parte do estado de Santa Catarina. Sinto-me impotente de não poder ajudar, estar perto de amigos e parentes ilhados, desabrigados e desesperados. Aqui no Rio, hoje, brilha um sol que por hora dispenso (preferia que brilhasse em Blumenau), uma insônia de noites de preocupação e um esforço para não largar tudo e voltar pra minha terra, tentar ajudar. Muita sorte, luz e garra pra gente que, outra vez, precisa levantar de uma catástrofe e recuperar os móveis, o orgulho, os perdidos e a beleza da nossa cidade. Amo vocês, e este texto é para vocês. Com todo o carinho. Fábio, usei tua casa como inspiração.

Doações em dinheiro, deposite: Caixa Econômica Federal - Ag. 0411 - Cc 80 000 - 0

Alimentos, roupas, cobertores, fraldas (pra quem é da terra): Fundação Pró- Família, Rua Itapiranga, 368, atrás do Galegão. (fonte: Jaime Avendano, diretor do Jornalismo - SECON, Prefeitura de Blumenau (47) 3326 6995 ou (47) 99689713).



Da janela do meu apartamento vejo a água subindo lentamente. Não há energia, deixei o mercado pra última hora e o último gole de água que me resta dei aos gatos na cozinha. Caminho de um lado pro outro. Escuto o som dos bombeiros, da chuva, e dos carros que teimam em tentar escapar dessa enchente maldita.
Olho pro último lapso de bateria que resta no visor do meu celular. Ligo: “Sonhei contigo. Sonhei com nossa antiga cama e com nosso abraço. Sonhei com um abraço forte. Eu queria, no sonho, te dizer que eu te amo e que acho que vou te amar até o último dia da minha vida. E no momento em que eu te diria isso a água entrou em nosso quarto e desatamos o nó de nossos braços. A água entrou e partiu em duas partes o que sempre foi uma e eu gritava por ti, e tu por mim, e nos separávamos sem saber direito o porque. E eu não respirava como sempre, eu não tinha mais ar, e pela primeira vez na vida vi a morte como um possibilidade fácil e possível. Sem medo na verdade. Acordei. Tudo estava absurdamente escuro e chovia muito. A água batia no parapeito da janela e molhava de leve o velho tapete laranja. Senti tua falta.
Estirei sem medo meio corpo pra fora e senti a chuva bater com força na minha boca semi-aberta. Sede. Pensei em pular. Senti-me ridículo. No morro na frente do meu prédio, uma casa desmoronou naquele exato momento. Junto com ela mais três que estavam embaixo. Uma delas era a nossa. Vi cada bugiganga que consegui juntar na vida virarem nada. Ri dos detalhes ridículos da decoração azul do nosso antigo banheiro sumirem com a lama. Sempre achei brega aquele banheiro. Nunca te incomodou. Vi toda a sua coleção de discos do Beatles virarem adubo. Vi tudo se perdendo sem previsão pra reconstituir. Meu coração partiu. E eu, que tanto choro, não consegui derramar uma única lágrima. Engraçado... Ando chorando pouco mesmo na pior dor.
Eu só queria um sol amarelo, poucas nuvens num céu azul, um campo dourado de girassóis, um vento refrescante, sorrisos em árvores, violinos afinadíssimos tocando a tua música preferida, um rio gelado pra tomar banho e maçãs pra matar a fome. Eu queria neste exato momento tocar tuas mãos de leve com as minhas e te redescobrir inteira. Falar-te de um filme que vi, te atrapalhar a leitura, e rir de qualquer besteira.
Mas, o que tenho aqui dentro é um quarto pequeno e lá fora, chuva. A cidade está destruída. Eu também. E me desculpa te ligar agora, está acabando a bateria, mas eu precisava te dizer essas coisas, sabe como é, o prédio é velho e tenho medo que desmorone, como a nossa casa. Ao mesmo tempo não quero abandonar os gatos aqui sozinhos, os bombeiros não me permitem levá-los. Mas não se preocupe, estou bem. Estou bem.”
Tento seguir e tento voltar.Dou voltas em torno de mim mesmo. Desaba tudo ao meu redor. Vejo a bomba do posto sendo devorada pela água, vejo as ruas por onde andei tranquilamente em minha infância cheias de lama, ouço gritos de mães que procuram os filhos em escombros, e te vejo longe, num bote salva-vidas gritando por meu nome. Tento gritar, a voz não sai, tento correr e não saio do lugar, meu coração bate mais forte, vomito pregos e arranjos florais, e só então percebo que ainda não acordei. Tento conscientemente dentro do meu próprio sonho acordar e não consigo.
Toca o telefone. Desperto. Dou um tapa na minha cara pra ver se acordei mesmo. Sinto dor, alívio. Sorrio. Atendo o telefone. Era você dizendo, 5h da manhã, que sol surgia tímido e a água baixava lentamente. Abri a janela e vi o seu Maneco reabrir o bar e analisar o estrago, um bote engraçado passar entre a sombra do prédio e a claridade do novo sol, e um moço fechar sorridente o guarda-chuvas. Senti um pingo de esperança. Por mais insano que possa parecer, só o que eu consegui te dizer, com a voz falhando e voltando foi, “meu guarda chuvas está quebrado”. Você riu. Eu também. “Eu sonhei contigo!” Saiu da minha boca. “O que?” “Outra hora te conto”. Desligo. Um pássaro canta. Choro.






terça-feira, 23 de setembro de 2008

A incapacidade de contar estrelas num triste fim de tarde.


Ola amigos!

Desculpem a demora e a ausencia de assentos. Por coincidencia, nao so a menina que ri anda pelo mundo, peguei a estrada e atravessei o planeta. Estou na India, filmando, vivendo, e refletindo muito. Danada da menina que previu essa viagem. Quanto mais eu fujo dela mais ela sorri. Beijos.



Do terraco do predio velho pensava que voava a menina. Ouvia canticos de vozes masculinas a Ala, por do sol do fim do dia em um bairro muculmano. Deitada no parapeito era o ceu que ela via. Sentiu vertigem.

Ventava em Chennai. Voava a menina.

`Dificil viver sem chao. Olhar para um ceu de distinta constelacao` e se atirava no nada, como se o ceu fosse um precipicio ao contrario. Sentiu medo a menina. Medo de, deitada no parapeito do terraco, cair para cima.

O canto acabou. O vento levanta a saia dos homens que caminham do templo a suas casas. O ceu teima no rosa dos raios cansados. Os corvos gritam na copa da arvore. `Que sentido se nao o viver? Grande merda a supergirl que cruza o mundo e agora voa no muro de um terraco pra descobrir que a pinta do lado do umbigo e a mesma em qualquer direcao que se va. Aqui, sem estrelas decifraveis, abracos vaos, pao de queijo com requeijao, a menina agradece ao silencio por doer a solidao. `Nada nem ninguem nesse mundo vale mais do que um grao`.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O triste fim da mulher do atirador de facas.



"Aqui é minha casa" dizia sobre o colorido desbotado da velha lona, do velho circo, a mulher do atirador de facas. Lucy era seu nome e já não mantinha aos 30 a mesma beleza que possuíra aos 20, mesmo assim era bonita. Lucy amava Oly, o encantador de baleias, mas era casada com Xico, o atirador de facas, seu companheiro no número mais antigo do velho circo.

Oly era tão cego quanto suas baleias. Dançava no mar como criança que brinca na areia. Não lia, escrevia, mas vivia de poesia. Chorava como uma foca ao ouvir as facas de Chico voando e rasgando a beira da roupa de Lucy.

Lucy tinha orgasmos ao sentir a pele arranhando superficialmente. Xico dominava como ninguém aquele número. Todos os dias a mesma coisa: a precisão de cada arremesso era a tristeza de mais uma rotina. Lucy sonhava com o erro, uma cicatriz, uma dor, um sentir, e nada. Xico repetia enquanto soltava as facas: " Belo número, amor".

Lucy um dia cansou. "Me entrego inteira a esse mar, a esse homem, Oly, te amo como amo a liberdade". A Oly beijou, tirou a cola que cobria seus olhos, Oly enxergou. Achou o mar feio, a baleia estúpida e Lucy deprimente. Oly se matou.

Xico sofria e a cegueira se entregou. Definhou. Envelheceu. Ficou patético de tão gordo. Bebeu e vomitou inúmeras noites. Teve mulheres como nunca. Putas, atrizes, dançarinas de cabaré, cantoras baratas, madames em colares de pérolas. Bucetas novas e velhas circularam por sua cama. Mas, Xico só queria Lucy, a companheira dormindo e roncando ao seu lado no buraco de anos do colchão barato.

Lucy alimentava a baleia com sua dor transformada em gotas de por do sol. Se irritou profundamente com a poesia natural das coisas e decidiu ir embora. "Não quero enxergar horizonte. Xico querido, te deixo livre pra seguir qualquer caminho, não quero ser pra ti uma pedra que causa dor. Eu sumo, eu vou, mas te peço, só mais uma vez, a última, faça com que esse momento seja especial".

"Nunca traí mulher minha" consente Xico pegando o saco preto com as facas afiadas e velhas. E na primeira tacada, como se fosse a ação de anos, como se enxergasse mais claro, a faca entra certa, no lado esquerdo de Lucy, no meio. ela olha para cima pela última vez, vê pelo rasgo da velha lona o último pedaço de céu. "Obrigada por tudo Xico". Morre sorrindo, o sangue escorrendo, os olhos cheios sem que lhe caia uma única lágrima.


Fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2008


Menina abre a janela e vê passarinhos, doce Branca de Neve cantando pro sol que amanhece neste dia frio de junho. Ao contrário do conto não existem 7 homenzinhos, quem sabe o príncipe encantado, “isso fica mais pro fim da história” sorri cantado a menina que ri.
Ontem Bela Adormecida despertando com doces beijos de amor. E mais do que Bela Adormecida o abraço mais quente sob o cobertor mais macio do que peles de princesas em contos de fadas perdidos em livros empoeirados sobre estantes de escolas públicas. “Eu te amo” ouvia a menina com ramelas nos cantos dos olhos recém abertos. “Também te amo” sorri acordando a menina que ri.
Cinderela calçava o sapato na porta que dá pra rua mais colorida que tintas guache podem colorir. “Com um beijo me despeço, levo comigo teu cheiro e teu todo guardado no lado esquerdo de mim” pensava enquanto erguia o pé no abraço final daquele dia que começava, tinha que ir a menina. De all star branco sem cristais, sem glamour (ou carruagens que viram abóboras), sorri caminhando a menina que ri.
Dorothy menina pela estrada de pedras amarelas, caminhando do Humaitá até a casa em Ipanema pensava nos amigos e naquele que de sobra tem coração, cérebro e coragem. Nem homem de lata, espantalho ou leão. “Menino”, sorri pensando a menina que ri.
E, finalmente, de Rapunzel sem tranças, apenas a altura (1,73) e os cabelos loiros (luzes sobre o loiro escuro natural) ouve a voz do príncipe que lhe chama (no celular “estou na frente da sua casa”). Segura a ponta do vestido e desce correndo a curva das escadas, dribla o soldado (porteiro) e rompe as grades do portão. O menino lá, sorrindo, sobre o seu cavalo (bicicleta) “passei pra te dar um beijo”. Enquanto se abraçam a menina disfarçadamente espia sobre o ombro do menino e vê passar, dentro do ônibus que vai pra Gávea, os sete anões, as três fadas, outra fada, o mágico, a vovozinha, a fera e tantos outros, gritando, abanando e sorrindo num estardalhaço fenomenal. Menina ri. “Do que estás rindo?” pergunta o menino. “Nada” sorri amando a menina que ri.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Abril despedaçado.


Dedicado a Mateus, Tato, Chris, Guto, Prima, Jean, Jaguarito e Lars von Trier.


A menina zerou. Foi sambar e levaram da bolsa quem era a menina. A foto, o telefone dos amigos, os números que são menina em documentos, chave da casa, agenda e bolsa, presente do amigo baiano da menina. Sorte, sorte que na Lapa existem anjos, lindos, amados, que seguraram com força a mão, os braços, e levaram consigo a menina, pra que não chorasse, pra que as tristezas do dia terminassem ali, no vazio do bolso, na casa trancada, no mar da rua que tem na frente.Dormiu envolvida em asas, espirrou com a pena do anjo que entrava pelas narinas. Chorou só um pouquinho.


A menina fez anos em abril. Lembrou, por um momento, do bolo da festa de cinco anos, uma cara de palhaço que dava pena de comer. Lembrou das mãos da avó segurando seus cabelos ainda molhados ("por que não seca?"), do sorriso da mãe preocupada com os convidados ("não põe o dedo no bolo, filha"), da lágrima do pai, orgulhoso, vendo a filha arriscar pela festa alguns passos de balé ("paulica, vem me dar uma bicoca"). Lindas lembranças. Bom ter do que lembrar. Desse ano a menina só quer esquecer. Voltou pro frio de céu azul. Ouviu, sentiu, chorou, surtou. "Nem tive bolo!" Zerou.


Queria escrever, a menina. Sentou no computador, coca light, cigarros, inspiração e... nada. Tudo preto. "O que tem ele, moço? Cadê minhas coisas? Meus textos tristes? Fotos sorrindo e fotos de lugares? Cartas guardadas? Poesia? Segredos descritos em longas dissertações? Onde moço?" E o moço, palito mastigado no canto da boca, facão na mão: "Deu pobrema menina. queimou a tal da placa mãe. Vais ficar sozinha em abril, nada de amigos online, nada de skype, yogurte, email só rápido na lanhouse. Ah, perdestes quase tudo!" "Não, moço, perdi tudo. deixa ir". E a menina deixou.


Caminhando e cantando, sem lenço e sem documento, o sol surgiu. E na primeira terça feliz do mês de maio a menina cortou a mão. 3 pontos, nova cicatriz marcada no canto esquerdo, da mão, do peito. Cicatriz pra olhar a vida toda e não esquecer que tudo merece um recomeço. Zerada, marcada e amada, menina sorridente sonha e volta a cantar como se fosse a primeira vez. Estranha o microfone na mão costurada e segue como se fosse a penúltima canção. Sempre a penúltima (pra que não tenha fim).




"Dizem que é a última canção, mas eles não nos conhecem, só será a última canção se deixarmos que seja." (Dançando no Escuro - Lars Von Trier).