terça-feira, 23 de setembro de 2008

A incapacidade de contar estrelas num triste fim de tarde.


Ola amigos!

Desculpem a demora e a ausencia de assentos. Por coincidencia, nao so a menina que ri anda pelo mundo, peguei a estrada e atravessei o planeta. Estou na India, filmando, vivendo, e refletindo muito. Danada da menina que previu essa viagem. Quanto mais eu fujo dela mais ela sorri. Beijos.



Do terraco do predio velho pensava que voava a menina. Ouvia canticos de vozes masculinas a Ala, por do sol do fim do dia em um bairro muculmano. Deitada no parapeito era o ceu que ela via. Sentiu vertigem.

Ventava em Chennai. Voava a menina.

`Dificil viver sem chao. Olhar para um ceu de distinta constelacao` e se atirava no nada, como se o ceu fosse um precipicio ao contrario. Sentiu medo a menina. Medo de, deitada no parapeito do terraco, cair para cima.

O canto acabou. O vento levanta a saia dos homens que caminham do templo a suas casas. O ceu teima no rosa dos raios cansados. Os corvos gritam na copa da arvore. `Que sentido se nao o viver? Grande merda a supergirl que cruza o mundo e agora voa no muro de um terraco pra descobrir que a pinta do lado do umbigo e a mesma em qualquer direcao que se va. Aqui, sem estrelas decifraveis, abracos vaos, pao de queijo com requeijao, a menina agradece ao silencio por doer a solidao. `Nada nem ninguem nesse mundo vale mais do que um grao`.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O triste fim da mulher do atirador de facas.



"Aqui é minha casa" dizia sobre o colorido desbotado da velha lona, do velho circo, a mulher do atirador de facas. Lucy era seu nome e já não mantinha aos 30 a mesma beleza que possuíra aos 20, mesmo assim era bonita. Lucy amava Oly, o encantador de baleias, mas era casada com Xico, o atirador de facas, seu companheiro no número mais antigo do velho circo.

Oly era tão cego quanto suas baleias. Dançava no mar como criança que brinca na areia. Não lia, escrevia, mas vivia de poesia. Chorava como uma foca ao ouvir as facas de Chico voando e rasgando a beira da roupa de Lucy.

Lucy tinha orgasmos ao sentir a pele arranhando superficialmente. Xico dominava como ninguém aquele número. Todos os dias a mesma coisa: a precisão de cada arremesso era a tristeza de mais uma rotina. Lucy sonhava com o erro, uma cicatriz, uma dor, um sentir, e nada. Xico repetia enquanto soltava as facas: " Belo número, amor".

Lucy um dia cansou. "Me entrego inteira a esse mar, a esse homem, Oly, te amo como amo a liberdade". A Oly beijou, tirou a cola que cobria seus olhos, Oly enxergou. Achou o mar feio, a baleia estúpida e Lucy deprimente. Oly se matou.

Xico sofria e a cegueira se entregou. Definhou. Envelheceu. Ficou patético de tão gordo. Bebeu e vomitou inúmeras noites. Teve mulheres como nunca. Putas, atrizes, dançarinas de cabaré, cantoras baratas, madames em colares de pérolas. Bucetas novas e velhas circularam por sua cama. Mas, Xico só queria Lucy, a companheira dormindo e roncando ao seu lado no buraco de anos do colchão barato.

Lucy alimentava a baleia com sua dor transformada em gotas de por do sol. Se irritou profundamente com a poesia natural das coisas e decidiu ir embora. "Não quero enxergar horizonte. Xico querido, te deixo livre pra seguir qualquer caminho, não quero ser pra ti uma pedra que causa dor. Eu sumo, eu vou, mas te peço, só mais uma vez, a última, faça com que esse momento seja especial".

"Nunca traí mulher minha" consente Xico pegando o saco preto com as facas afiadas e velhas. E na primeira tacada, como se fosse a ação de anos, como se enxergasse mais claro, a faca entra certa, no lado esquerdo de Lucy, no meio. ela olha para cima pela última vez, vê pelo rasgo da velha lona o último pedaço de céu. "Obrigada por tudo Xico". Morre sorrindo, o sangue escorrendo, os olhos cheios sem que lhe caia uma única lágrima.


Fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2008


Menina abre a janela e vê passarinhos, doce Branca de Neve cantando pro sol que amanhece neste dia frio de junho. Ao contrário do conto não existem 7 homenzinhos, quem sabe o príncipe encantado, “isso fica mais pro fim da história” sorri cantado a menina que ri.
Ontem Bela Adormecida despertando com doces beijos de amor. E mais do que Bela Adormecida o abraço mais quente sob o cobertor mais macio do que peles de princesas em contos de fadas perdidos em livros empoeirados sobre estantes de escolas públicas. “Eu te amo” ouvia a menina com ramelas nos cantos dos olhos recém abertos. “Também te amo” sorri acordando a menina que ri.
Cinderela calçava o sapato na porta que dá pra rua mais colorida que tintas guache podem colorir. “Com um beijo me despeço, levo comigo teu cheiro e teu todo guardado no lado esquerdo de mim” pensava enquanto erguia o pé no abraço final daquele dia que começava, tinha que ir a menina. De all star branco sem cristais, sem glamour (ou carruagens que viram abóboras), sorri caminhando a menina que ri.
Dorothy menina pela estrada de pedras amarelas, caminhando do Humaitá até a casa em Ipanema pensava nos amigos e naquele que de sobra tem coração, cérebro e coragem. Nem homem de lata, espantalho ou leão. “Menino”, sorri pensando a menina que ri.
E, finalmente, de Rapunzel sem tranças, apenas a altura (1,73) e os cabelos loiros (luzes sobre o loiro escuro natural) ouve a voz do príncipe que lhe chama (no celular “estou na frente da sua casa”). Segura a ponta do vestido e desce correndo a curva das escadas, dribla o soldado (porteiro) e rompe as grades do portão. O menino lá, sorrindo, sobre o seu cavalo (bicicleta) “passei pra te dar um beijo”. Enquanto se abraçam a menina disfarçadamente espia sobre o ombro do menino e vê passar, dentro do ônibus que vai pra Gávea, os sete anões, as três fadas, outra fada, o mágico, a vovozinha, a fera e tantos outros, gritando, abanando e sorrindo num estardalhaço fenomenal. Menina ri. “Do que estás rindo?” pergunta o menino. “Nada” sorri amando a menina que ri.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Abril despedaçado.


Dedicado a Mateus, Tato, Chris, Guto, Prima, Jean, Jaguarito e Lars von Trier.


A menina zerou. Foi sambar e levaram da bolsa quem era a menina. A foto, o telefone dos amigos, os números que são menina em documentos, chave da casa, agenda e bolsa, presente do amigo baiano da menina. Sorte, sorte que na Lapa existem anjos, lindos, amados, que seguraram com força a mão, os braços, e levaram consigo a menina, pra que não chorasse, pra que as tristezas do dia terminassem ali, no vazio do bolso, na casa trancada, no mar da rua que tem na frente.Dormiu envolvida em asas, espirrou com a pena do anjo que entrava pelas narinas. Chorou só um pouquinho.


A menina fez anos em abril. Lembrou, por um momento, do bolo da festa de cinco anos, uma cara de palhaço que dava pena de comer. Lembrou das mãos da avó segurando seus cabelos ainda molhados ("por que não seca?"), do sorriso da mãe preocupada com os convidados ("não põe o dedo no bolo, filha"), da lágrima do pai, orgulhoso, vendo a filha arriscar pela festa alguns passos de balé ("paulica, vem me dar uma bicoca"). Lindas lembranças. Bom ter do que lembrar. Desse ano a menina só quer esquecer. Voltou pro frio de céu azul. Ouviu, sentiu, chorou, surtou. "Nem tive bolo!" Zerou.


Queria escrever, a menina. Sentou no computador, coca light, cigarros, inspiração e... nada. Tudo preto. "O que tem ele, moço? Cadê minhas coisas? Meus textos tristes? Fotos sorrindo e fotos de lugares? Cartas guardadas? Poesia? Segredos descritos em longas dissertações? Onde moço?" E o moço, palito mastigado no canto da boca, facão na mão: "Deu pobrema menina. queimou a tal da placa mãe. Vais ficar sozinha em abril, nada de amigos online, nada de skype, yogurte, email só rápido na lanhouse. Ah, perdestes quase tudo!" "Não, moço, perdi tudo. deixa ir". E a menina deixou.


Caminhando e cantando, sem lenço e sem documento, o sol surgiu. E na primeira terça feliz do mês de maio a menina cortou a mão. 3 pontos, nova cicatriz marcada no canto esquerdo, da mão, do peito. Cicatriz pra olhar a vida toda e não esquecer que tudo merece um recomeço. Zerada, marcada e amada, menina sorridente sonha e volta a cantar como se fosse a primeira vez. Estranha o microfone na mão costurada e segue como se fosse a penúltima canção. Sempre a penúltima (pra que não tenha fim).




"Dizem que é a última canção, mas eles não nos conhecem, só será a última canção se deixarmos que seja." (Dançando no Escuro - Lars Von Trier).

terça-feira, 1 de abril de 2008

A beleza do Rio ou o dia em que a menina se viu.



Eram muitas pessoas. Bebiam e sorriam dentro de rostos Mac e batons chanel. A menina também, bebia e sorria borrando o batom. Abraços e promessas, beijos sem compromisso, lanchas e passeios em campos de golfe. Zero sentido. "seu vestido é lindo, seu cabelo está horrível, essa é a música que você tem que ouvir, dance assim, coma isto, suba no salto mesmo que te cause bolhas e dor, puxa o cabelo, use muito ouro nessa estação, creme anti-rugas, sorria na foto mesmo que esteja triste, clareie os dentes, brinde, não coma, seja magra, seja linda, tenha 18 anos sempre!"

E a menina olhava pro mar sem conseguir entender seu brilho.

Apertos de mãos frias não fazem sentido. Congelam as veias podendo causar uma parada total do músculo central, que pulsa, fraco. E na última festa do ano, enquanto caminhava sozinha, as 6h da manhã com o sol a nascer sobre o mar de Ipanema, a menina chorou. Que 2008 venha como o sol, quente, brilhante, intenso.

E logo em janeiro a menina beijou. Era como um beijo de filme, alguém gritava corta. Tarde demais pra um coração cansado de sofrer. Do set veio o jantar, a peça, o filme, o cirque du soleil, o vinho e as tardes lindas de chuva sobre o colchão. A menina descabelada, sem maquiagem, havaianas nos pés e o abraço mais quente da pele mais macia. E como se todo o aconchego não bastasse, a menina seguiu esbarrando em corações intensamente cheios de vida e verdade. Alguns já tão especiais na vida dela. A escritora que a fez chorar (D), o ator que a fez sorrir (C) o diretor que a fez sentir (T), o ator/tradutor/diretor (F) que lhe devolveu esperança. E ele, sempre ele, montado na bicicleta entre curvas e esquinas (mal sabe que tem asas, não precisa de artifícios pra voar), lhe devolveu o coração embrulhado carinhosamente num pote de Haagen-Daz.

Hoje, enquanto voltava pra casa, na mesma orla de Ipanema, com o mesmo sol intenso, quente, brilhante, ela sorriu e entendeu o maior de todos os sentidos. A beleza do Rio não é Ipanema, o Cristo, a floresta... é poder sentir-se pela primeira vez em um lugar seu, plena de sentidos, sem carcaças.

A menina agradece.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Perfect Night.


A menina ri para todos que cruzam seu caminho. A menina é alegre e cativante. “Simpática, bonita, querida, um amor... e que coração” dizem os que a conhecem.
A menina deita no travesseiro e chora. Sente-se mais só do que em toda a sua vida.
Ela conquista. O telefone não pára de tocar. Todos querem conhecer, tocar, beijar, viver, usar. Onde passa arranca suspiros, é daquelas que atrai os olhares de todos ao entrar no salão.
Mas, deita no colchão macio e afunda sozinha em lágrimas doídas.
Tem a pele macia. Victoria Secrets diretamente do exterior, parando sobre a prateleira e dançando na pele perfumada da menina. Corpo bonito, mãos de seda, unhas feitas e cabelo macio.
A menina deita e não consegue dormir. Chora a menina.

Por um momento pensa em desistir. Mas recorda os filmes com seus heróis em desfechos emocionantes e finais felizes. Lembra dos sonhos que teve, da força que eles tinham. Contraste com a dura realidade de sentir-se tão só. Ela não consegue mais sonhar. Ela tenta e não consegue porque não acredita em mais nada. Não acredita em Deus (sente-se abandonada), não acredita em amigos (os bons estão longe ou montados em carcaças de sorrisos falsos), não acredita em futuro (uma merda), não acredita em promessas (palavras falsas), não acredita no amor. A menina só consegue acreditar na mentira e na solidão. No prazer que vem, faz cócegas e vai embora.

Submersa no cinza esverdeado dos lençóis ela digita um texto qualquer e vomita do fundo do lodo toda a bosta da vida.
Hoje a menina chora.

quarta-feira, 12 de março de 2008

A menina e seu ipod, ou a vida com trilha sonora (segundo Daniel Olivetto, by Malcon Bauer)






Caminhando pelo centro, com toda a poluição sonora característica das grandes cidades, ela ouve "Fico assim sem você" da Adriana Calcanhoto. E a frase que não sai da cabeça, e que arranca lágrimas ali, no meio daquele povo todo é "Por que é que tem que ser assim?", a mesma frase que a fez chorar na frente do micro baixando a música, "Por que é que tem que ser assim?" E de noite, com um ouvido só que ouvia (porque o outro queria captar o que estava ao seu redor) "... DEITAR NO TEU ABRAÇO, RETOMAR O PEDAÇO QUE FALTA NO MEU CORAÇÃO, EU NÃO EXISTO LONGE DE VOCÊ". E sempre, "por que é que tem que ser assim?".

A menina chora compulsivamente com uma dor maior do que a dor que cabe no peito. A menina come rosquinhas e caminha chorando dentro do óculos de sol. "Por que é que tem que ser assim?"

Muda a música. "Secret heart" da Feist." E seguia acertando os passos para que dançasse caminhando. E pensa na letra: "coração secreto, do que você é feito?" e mais, "Deixe-os entrar no seu coração secreto... tem algum segredo que você está tentando ocultar?É o mesmo que você está morrendo pra revelar? Vá falar a eles como você se sente..."
E a menina tem muita vontade de falar como se sente, como se sentir tivesse explicações, como se pudesse publicar um livro cheio de verdades. Mas as palavras não acompanham o que só os olhos expurgam. Então, o que tem a fazer a menina, é seguir mesmo assim, ipod ditando a trilha sonora das cenas seguintes, e o rosto molhado sempre com as lágrimas de quem falta algo. "Vai ver todo mundo é triste" pensa a menina. E é isso.