segunda-feira, 25 de junho de 2012

Tchau!

A menina acordou com o desejo de voar. E assim fez. E como borboleta que tem vida curta saltou para o céu e migrou. E foi entre as nuvens (nunca uma borboleta tinha voado tão alto) que olhou seu feito, abaixo, e sorriu. A menina que ri sorriu pela última vez antes de partir.

E aqui me despeço desse blog companheiro e da menina que um dia eu fui. A menina que ri nunca morrerá. Quem sabe entre um vôo e outro, acordando da preguiça ela retorne? A menina manda beijos, carinhos, amores, e diz a todos que a acompanham que sejam felizes na vida. Queiram ser filmes, doces, rabiscos, carinhos em lugares que estão coçando. Que sussurrem e sorriam. E que o choro, quando surgir, lave a alma.

Grande beijo.

Estou aqui:

www.paulinhabraun.blogspot.com


domingo, 11 de setembro de 2011

Bandaids e pipas.


Obrigada pai, por me ensinar a pisar com os pés descalços.




"Coleções servem pra juntar pó” disse o pai da menina. A menina colecionava bandaids. De todos os formatos, cores, tamanhos. Tinha de bolinhas, de coruja, de listras verdes e vermelhas. “Para estancar todos os tipos de dor” dizia.

Menina tinha os pés de fora, pisava descalça em gramados verdes, corria sobre areias quentes até levantar a maior tempestade do maior deserto que existe no mundo. Menina nadava como se peixes precisassem aprender. Construía castelos imensos de areia. Todos os dias! “Pra nunca enjoar, pra sempre morar em um lugar diferente”. Papai olhava menina preocupado com um futuro que era só amanhã. "Não perca minha filha disso tudo o chão que te falta aos pés". “É só amanhã papai!!!”

"Amanhã já chegou minha filha querida”. E como num anoitecer acelerado, manhã fez-se orvalhada e fria. Menina de cabelos longos, fechava o sapato como quem fecha um ciclo. Menina saiu de cabelos amarrados (já não sentia o vento de vendaval no rosto queimado levemente pelo sol), pasta sob o suvaco (o mesmo que sentia as cócegas exageradas do pai), chave do carro nas mãos ( não subia mais até a lua, carruagem que a levaria até a porta do castelo daquele dia).

Menina cresceu.

A coleção de bandaids agora tinha como morada uma latinha velha e enferrujada com pipas coloridas na tampa. A caixinha cheia de pó pousava nas mãos envelhecidas do pai. Menina olhava o relógio, desesperada tentava segurar um pouco mais o tempo. “Atrasada, tenho reunião” “Por que a pressa? Fica hoje minha filha” "Não posso” ela dizia. E nunca podia.

Beijo na testa e um "se cuida" cheio de perfume. Pai ouvia “Blowin ‘In the wind” , velha música do Bob Dylan. Segurava a velha caixinha. Olhava a coleção como quem vê um velho album de retratos. Pai derrama sobre o bandaid de flores azuis seu ultimo suspiro e leva consigo tudo o que era a menina. De carruagem sobe a rampa do castelo. Pisa na grama, solta uma pipa e sai voando com os peixes. Sobrevoa o escritório (cela) da menina. Joga da caixinha todos os bandaids (pra estancar a dor, lembra?). Grita: “Urrul, puta que o pariu”.

Chove. Menina ri. Menina segura com a ponta dos dedos o bandaid de flores azuis. Menina chora.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

FELIZ VIDA EM 2011!!!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Feliz Ano Novo




Nada de esperar. O segundo seguinte é sempre tão rápido quanto o que passou. A menina sorria enquanto via todos aqueles pássaros tão perto do sorriso daquele que está ao lado. E a frase mais bonita ela ouvia. Sim, disse em meio ao molhado do rosto que não continha as batidas fortes do coração. Sim. Aceito viver feliz todos os segundos que espero pulsando, aceito as lágrimas cobertas de amor, aceito os riscos de errar as receitas que elaboro, aceito os desafios dos sabores deliciosos dos vários cafés nespresso da cozinha, aceito as delícias de teus braços longos , teus carinhos ao fim do dia nos pés meus, tão cansados, aceito. Aceito viver como a criança que eu fui contando nos dedos quantos anos eu teria no ano 2000. Já se passaram 10. Aceito viver aqui, perto do mar. Aceito as diferenças, as qualidades, o carinho que faço com meus dedos entre teus fios. Aceito tudo. Eu topo. Já é.

De todas as coisas lindas criadas no mundo, de todos os bons sentimentos, que o amor seja sempre a mais humana. Essa sucessão de segundos que insiste em não parar (mesmo nos momentos que pedimos ao tudo ‘pára aqui, só um pouquinho’) é o que aperta entre as costelas da menina que ri. Quisera nunca ter tido medo da felicidade.

Gritava junto aos fogos da virada. Ria, olhava as ondas batendo nas pedras, brindava à alegria, sentia o vento na palma da mão, a água molhando o cabelo, os músculos contraindo com o sorriso, o pescoço relaxado, os olhos fechados, e o abraço silencioso, tenro, vivo. “Eu te amo” ele dizia. E a menina, sem medo, repetia.

Feliz ano Novo.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Os olhos da menina (pela menina que chora).


Se você sorrir ao passar e disser “tudo bem”, eu saberei que não está.
Se você der as mãos pra mim, limpas e lavadas, eu saberei o que se esconde sob sua pele.
Ao dizer-me “Bom dia” eu responderei “boa tarde” pois estarei à sua frente.
Se mentir for preciso, eu responderei com a verdade e esta talvez lhe doa.
Se receber um soco no estômago, nada farei, meu olhar te responderá como a pior agressão. Sua dor será maior.
E se me abraçares, estarei de olhos abertos olhando sobre seu ombro, pra dentro de você.
Porque eu sou como a obra que está no canto esquerdo da galeria e te provoco emoções fortes, porém sutis. Não sabes por qual entranha eu entro, simplesmente estou. E se de mim desviares os olhos e em seguida acenderes um cigarro, pode ter certeza que este será o fim. Tenho um raio dentro de mim. Tenho o mundo como uma página de um livro, fogo que arde e arrebenta ao universo. Eu sou, simplesmente. E nada além disso fará qualquer sentido.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Nossa paz. (Dedicado a Jeferson Miranda e Mateus, meu amor)



Hoje vejo um céu nublado. Nada de tristeza apenas a beleza da ausência da chuva. Caminho pelas ruas como se fosse poesia. Sorrio pra um homem que me entrega uma chave, reparo na blusa estourando um botão. Perco-me “pra frente ou pra trás” sigo. Vejo duas velhinhas saboreando um frango a passarinho, como se não fosse um frango, podia ser pipoca, mas o momento sorria como um domingo qualquer em um boteco regado a coca cola. Tão simples ser feliz, tão misterioso também. A gente é no momento em que tira a pele queimadinha da borda antes da mordida. Sigo olhando mais pra cima do que pra baixo, e vejo na padaria o fim da tarde que se abria, no momento em que a atendente embrulhava o pãozinho (tomara que esteja quentinho, já imagino o café com leite e a manteiga derretendo no cantinho da mordida. Tomara também que não caia no chão, expectativa interrompida ‘ainda bem que tem mais pão’).
No mercado o chocolate granulado, pedaços doces pequeninos que juntos tornam-se o melhor do bolo, do brigadeiro. A prateleira parecia mais colorida, o cheiro parecia transpassar do saquinho. “Eu queria te sorrir” pensei. Caminhei. E finalmente, a chave que abriu o portão do apartamento, era como se estivesses por lá, me servindo café e contando tuas histórias. Acolhi-me, lembrei do teu sorriso quando te conheci, da tua infantilidade bonita, do futuro que espero (mesmo olhando no presente a tua palma da mão e teu olhar quando está do jeito que eu mais gosto), e do teu coração tão perdido se achando em cada manhã do meu lado. A chave que me entregaram na rua, é só uma chave velha com um barbante comprido (do meu coração, disse alguém num texto engraçado, por ser piegas, e bonito por parecer real).

A minha chave (hoje igual a tua) é de te encontrar no fim do dia, é de te esperar de peito aberto (e de saudade), é de abrir o melhor que tenho em mim. Chorando ou sorrindo, fazendo manha ou fazendo bico, arrumada ou esculachada, cansada ou disposta, tanto faz. Como no céu de quem espera o sol do dia seguinte, nossa chuva é sempre nossa paz.

domingo, 31 de maio de 2009

A Outra Parte.





Pronta para saltar ao primeiro gesto. Por um momento fecha os olhos e ouve: música e silêncio maiores do que palavras podem dizer no ato de um precipício. Até que, num gesto súbito e natural, ele lhe aperta o braço. Já está nua e sente mais que cheiro e calor, mais que beijo e pele. Sente sem saber explicar, como se fosse apenas estar ali, dentre bananeiras, precipício e rua movimentada. Sente o assombro da pedra desmontando embaixo dos pés descalços, a mão que a segura firme pelos cabelos e a voz que lhe sussurra no ouvido esquerdo. Ela estica um pouco o pescoço para que exale também seu cheiro. Ouve: “Te atira”. “Me solta então, me deixa”. “Medo de que te arrependas, que te transformes após a queda”. “Me deixa o medo é meu e me sinto livre”, “te entrega”, “me solta”, “te atira”, “me permite então”, “voa”, “seguras a minha mão com teus braços longos, mas solta o meu cabelo pra que eu possa, com o vento, nua, solta, livre, sem nenhuma carcaça, asas cortadas de borboleta semi-morta, me atirar, desmedida”. “Por quê”? “Eu preciso”. “Por que?” “Quero gritar” “Grita!”, “me deixa, eu me atiro”.

Ele a solta. Olhos nos olhos “até breve”. Volta ainda pela necessidade de um último abraço, beijo contido, “eu te amo”, pensa, e se atira, linda, braços abertos, plena sem saber voar.

sexta-feira, 6 de março de 2009






Do escuro fiz meu céu. Fecho os olhos e não vejo estrelas. Fujo. Estranho perceber a solidão. Limpo da face o sorriso e viro de lado pra que não me vejas chorar. Não choro por ti. Não choro por nada. Odeio justificar. Não me pergunte e não me segure pelo braço. A porta é logo ali. Caminho até o portão sem pisar no chão. Duro demais para enfrentar a sola do pé esfolada. Grito sem palavras, falo sem nexo, finjo existir. Toco as grades da cerca como se fossem maleáveis a ponto de me deixar fugir. Céu. Estúpido sol. Estúpido dia azul.


Entre quatro paredes arranco a carcaça e fico. Só, suja, nua. Decoro frases, fumo um cigarro e como o último pedaço de bolo da geladeira. Na parede quadros. Dalí. No chão farelos. Formigas. No peito dor. Você.


Dias passam, noites passam, respiro e espero tudo parar. Como demora, preencho a existência como o que de mais ralo acho por aqui. Piadas nerds, romances baratos, filmes desprezíveis e comida congelada. Não entendo nada, tanto faz entender. Do muro que levantei nem cimento comprei. Nada está aqui. Eu não estou aqui. E minha alma é todo o pranto de decadência do mundo.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Memórias de uma carta extraviada.


Se as lágrimas separam nossos lábios grito ao mundo que se recolha em um grão de areia. Ouso enviar-te pragas, trovões, tempestades, tapas e ofensas. Vejo uma borboleta morta ao lado do pneu parado. Vejo-te chorar, te corto com os dentes até chegar ao teu mais fundo pesar. Eu grito. Eu tenho medo. Eu me perco dos sentidos e caminho. Dou as mãos ao tempo esperando uma resposta, a resposta não vem. Escuto-te como se não ouvisse, te toco como se não fosses meu, te beijo procurando nos teus cantos algum sentido. Mas não se machuque. Eu pouso delicados os dedos na tua face buscando um sorriso. O céu se abre quando sorris. Eu deito ao teu lado buscando o teu calor, me entrego aos teus longos braços e choro baixinho para que não percebas. Eu te amo. E se a vontade dos nossos corpos e, acima de tudo, das nossas almas for maior que a dor, que seja puro, novamente, o nosso amor.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Alagado.
















Amigos, leitores, blogueiros!

Minha cidade está destruída, assim como boa parte do estado de Santa Catarina. Sinto-me impotente de não poder ajudar, estar perto de amigos e parentes ilhados, desabrigados e desesperados. Aqui no Rio, hoje, brilha um sol que por hora dispenso (preferia que brilhasse em Blumenau), uma insônia de noites de preocupação e um esforço para não largar tudo e voltar pra minha terra, tentar ajudar. Muita sorte, luz e garra pra gente que, outra vez, precisa levantar de uma catástrofe e recuperar os móveis, o orgulho, os perdidos e a beleza da nossa cidade. Amo vocês, e este texto é para vocês. Com todo o carinho. Fábio, usei tua casa como inspiração.

Doações em dinheiro, deposite: Caixa Econômica Federal - Ag. 0411 - Cc 80 000 - 0

Alimentos, roupas, cobertores, fraldas (pra quem é da terra): Fundação Pró- Família, Rua Itapiranga, 368, atrás do Galegão. (fonte: Jaime Avendano, diretor do Jornalismo - SECON, Prefeitura de Blumenau (47) 3326 6995 ou (47) 99689713).



Da janela do meu apartamento vejo a água subindo lentamente. Não há energia, deixei o mercado pra última hora e o último gole de água que me resta dei aos gatos na cozinha. Caminho de um lado pro outro. Escuto o som dos bombeiros, da chuva, e dos carros que teimam em tentar escapar dessa enchente maldita.
Olho pro último lapso de bateria que resta no visor do meu celular. Ligo: “Sonhei contigo. Sonhei com nossa antiga cama e com nosso abraço. Sonhei com um abraço forte. Eu queria, no sonho, te dizer que eu te amo e que acho que vou te amar até o último dia da minha vida. E no momento em que eu te diria isso a água entrou em nosso quarto e desatamos o nó de nossos braços. A água entrou e partiu em duas partes o que sempre foi uma e eu gritava por ti, e tu por mim, e nos separávamos sem saber direito o porque. E eu não respirava como sempre, eu não tinha mais ar, e pela primeira vez na vida vi a morte como um possibilidade fácil e possível. Sem medo na verdade. Acordei. Tudo estava absurdamente escuro e chovia muito. A água batia no parapeito da janela e molhava de leve o velho tapete laranja. Senti tua falta.
Estirei sem medo meio corpo pra fora e senti a chuva bater com força na minha boca semi-aberta. Sede. Pensei em pular. Senti-me ridículo. No morro na frente do meu prédio, uma casa desmoronou naquele exato momento. Junto com ela mais três que estavam embaixo. Uma delas era a nossa. Vi cada bugiganga que consegui juntar na vida virarem nada. Ri dos detalhes ridículos da decoração azul do nosso antigo banheiro sumirem com a lama. Sempre achei brega aquele banheiro. Nunca te incomodou. Vi toda a sua coleção de discos do Beatles virarem adubo. Vi tudo se perdendo sem previsão pra reconstituir. Meu coração partiu. E eu, que tanto choro, não consegui derramar uma única lágrima. Engraçado... Ando chorando pouco mesmo na pior dor.
Eu só queria um sol amarelo, poucas nuvens num céu azul, um campo dourado de girassóis, um vento refrescante, sorrisos em árvores, violinos afinadíssimos tocando a tua música preferida, um rio gelado pra tomar banho e maçãs pra matar a fome. Eu queria neste exato momento tocar tuas mãos de leve com as minhas e te redescobrir inteira. Falar-te de um filme que vi, te atrapalhar a leitura, e rir de qualquer besteira.
Mas, o que tenho aqui dentro é um quarto pequeno e lá fora, chuva. A cidade está destruída. Eu também. E me desculpa te ligar agora, está acabando a bateria, mas eu precisava te dizer essas coisas, sabe como é, o prédio é velho e tenho medo que desmorone, como a nossa casa. Ao mesmo tempo não quero abandonar os gatos aqui sozinhos, os bombeiros não me permitem levá-los. Mas não se preocupe, estou bem. Estou bem.”
Tento seguir e tento voltar.Dou voltas em torno de mim mesmo. Desaba tudo ao meu redor. Vejo a bomba do posto sendo devorada pela água, vejo as ruas por onde andei tranquilamente em minha infância cheias de lama, ouço gritos de mães que procuram os filhos em escombros, e te vejo longe, num bote salva-vidas gritando por meu nome. Tento gritar, a voz não sai, tento correr e não saio do lugar, meu coração bate mais forte, vomito pregos e arranjos florais, e só então percebo que ainda não acordei. Tento conscientemente dentro do meu próprio sonho acordar e não consigo.
Toca o telefone. Desperto. Dou um tapa na minha cara pra ver se acordei mesmo. Sinto dor, alívio. Sorrio. Atendo o telefone. Era você dizendo, 5h da manhã, que sol surgia tímido e a água baixava lentamente. Abri a janela e vi o seu Maneco reabrir o bar e analisar o estrago, um bote engraçado passar entre a sombra do prédio e a claridade do novo sol, e um moço fechar sorridente o guarda-chuvas. Senti um pingo de esperança. Por mais insano que possa parecer, só o que eu consegui te dizer, com a voz falhando e voltando foi, “meu guarda chuvas está quebrado”. Você riu. Eu também. “Eu sonhei contigo!” Saiu da minha boca. “O que?” “Outra hora te conto”. Desligo. Um pássaro canta. Choro.






terça-feira, 23 de setembro de 2008

A incapacidade de contar estrelas num triste fim de tarde.


Ola amigos!

Desculpem a demora e a ausencia de assentos. Por coincidencia, nao so a menina que ri anda pelo mundo, peguei a estrada e atravessei o planeta. Estou na India, filmando, vivendo, e refletindo muito. Danada da menina que previu essa viagem. Quanto mais eu fujo dela mais ela sorri. Beijos.



Do terraco do predio velho pensava que voava a menina. Ouvia canticos de vozes masculinas a Ala, por do sol do fim do dia em um bairro muculmano. Deitada no parapeito era o ceu que ela via. Sentiu vertigem.

Ventava em Chennai. Voava a menina.

`Dificil viver sem chao. Olhar para um ceu de distinta constelacao` e se atirava no nada, como se o ceu fosse um precipicio ao contrario. Sentiu medo a menina. Medo de, deitada no parapeito do terraco, cair para cima.

O canto acabou. O vento levanta a saia dos homens que caminham do templo a suas casas. O ceu teima no rosa dos raios cansados. Os corvos gritam na copa da arvore. `Que sentido se nao o viver? Grande merda a supergirl que cruza o mundo e agora voa no muro de um terraco pra descobrir que a pinta do lado do umbigo e a mesma em qualquer direcao que se va. Aqui, sem estrelas decifraveis, abracos vaos, pao de queijo com requeijao, a menina agradece ao silencio por doer a solidao. `Nada nem ninguem nesse mundo vale mais do que um grao`.

terça-feira, 29 de julho de 2008

O triste fim da mulher do atirador de facas.



"Aqui é minha casa" dizia sobre o colorido desbotado da velha lona, do velho circo, a mulher do atirador de facas. Lucy era seu nome e já não mantinha aos 30 a mesma beleza que possuíra aos 20, mesmo assim era bonita. Lucy amava Oly, o encantador de baleias, mas era casada com Xico, o atirador de facas, seu companheiro no número mais antigo do velho circo.

Oly era tão cego quanto suas baleias. Dançava no mar como criança que brinca na areia. Não lia, escrevia, mas vivia de poesia. Chorava como uma foca ao ouvir as facas de Chico voando e rasgando a beira da roupa de Lucy.

Lucy tinha orgasmos ao sentir a pele arranhando superficialmente. Xico dominava como ninguém aquele número. Todos os dias a mesma coisa: a precisão de cada arremesso era a tristeza de mais uma rotina. Lucy sonhava com o erro, uma cicatriz, uma dor, um sentir, e nada. Xico repetia enquanto soltava as facas: " Belo número, amor".

Lucy um dia cansou. "Me entrego inteira a esse mar, a esse homem, Oly, te amo como amo a liberdade". A Oly beijou, tirou a cola que cobria seus olhos, Oly enxergou. Achou o mar feio, a baleia estúpida e Lucy deprimente. Oly se matou.

Xico sofria e a cegueira se entregou. Definhou. Envelheceu. Ficou patético de tão gordo. Bebeu e vomitou inúmeras noites. Teve mulheres como nunca. Putas, atrizes, dançarinas de cabaré, cantoras baratas, madames em colares de pérolas. Bucetas novas e velhas circularam por sua cama. Mas, Xico só queria Lucy, a companheira dormindo e roncando ao seu lado no buraco de anos do colchão barato.

Lucy alimentava a baleia com sua dor transformada em gotas de por do sol. Se irritou profundamente com a poesia natural das coisas e decidiu ir embora. "Não quero enxergar horizonte. Xico querido, te deixo livre pra seguir qualquer caminho, não quero ser pra ti uma pedra que causa dor. Eu sumo, eu vou, mas te peço, só mais uma vez, a última, faça com que esse momento seja especial".

"Nunca traí mulher minha" consente Xico pegando o saco preto com as facas afiadas e velhas. E na primeira tacada, como se fosse a ação de anos, como se enxergasse mais claro, a faca entra certa, no lado esquerdo de Lucy, no meio. ela olha para cima pela última vez, vê pelo rasgo da velha lona o último pedaço de céu. "Obrigada por tudo Xico". Morre sorrindo, o sangue escorrendo, os olhos cheios sem que lhe caia uma única lágrima.


Fim.

sexta-feira, 27 de junho de 2008


Menina abre a janela e vê passarinhos, doce Branca de Neve cantando pro sol que amanhece neste dia frio de junho. Ao contrário do conto não existem 7 homenzinhos, quem sabe o príncipe encantado, “isso fica mais pro fim da história” sorri cantado a menina que ri.
Ontem Bela Adormecida despertando com doces beijos de amor. E mais do que Bela Adormecida o abraço mais quente sob o cobertor mais macio do que peles de princesas em contos de fadas perdidos em livros empoeirados sobre estantes de escolas públicas. “Eu te amo” ouvia a menina com ramelas nos cantos dos olhos recém abertos. “Também te amo” sorri acordando a menina que ri.
Cinderela calçava o sapato na porta que dá pra rua mais colorida que tintas guache podem colorir. “Com um beijo me despeço, levo comigo teu cheiro e teu todo guardado no lado esquerdo de mim” pensava enquanto erguia o pé no abraço final daquele dia que começava, tinha que ir a menina. De all star branco sem cristais, sem glamour (ou carruagens que viram abóboras), sorri caminhando a menina que ri.
Dorothy menina pela estrada de pedras amarelas, caminhando do Humaitá até a casa em Ipanema pensava nos amigos e naquele que de sobra tem coração, cérebro e coragem. Nem homem de lata, espantalho ou leão. “Menino”, sorri pensando a menina que ri.
E, finalmente, de Rapunzel sem tranças, apenas a altura (1,73) e os cabelos loiros (luzes sobre o loiro escuro natural) ouve a voz do príncipe que lhe chama (no celular “estou na frente da sua casa”). Segura a ponta do vestido e desce correndo a curva das escadas, dribla o soldado (porteiro) e rompe as grades do portão. O menino lá, sorrindo, sobre o seu cavalo (bicicleta) “passei pra te dar um beijo”. Enquanto se abraçam a menina disfarçadamente espia sobre o ombro do menino e vê passar, dentro do ônibus que vai pra Gávea, os sete anões, as três fadas, outra fada, o mágico, a vovozinha, a fera e tantos outros, gritando, abanando e sorrindo num estardalhaço fenomenal. Menina ri. “Do que estás rindo?” pergunta o menino. “Nada” sorri amando a menina que ri.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Abril despedaçado.


Dedicado a Mateus, Tato, Chris, Guto, Prima, Jean, Jaguarito e Lars von Trier.


A menina zerou. Foi sambar e levaram da bolsa quem era a menina. A foto, o telefone dos amigos, os números que são menina em documentos, chave da casa, agenda e bolsa, presente do amigo baiano da menina. Sorte, sorte que na Lapa existem anjos, lindos, amados, que seguraram com força a mão, os braços, e levaram consigo a menina, pra que não chorasse, pra que as tristezas do dia terminassem ali, no vazio do bolso, na casa trancada, no mar da rua que tem na frente.Dormiu envolvida em asas, espirrou com a pena do anjo que entrava pelas narinas. Chorou só um pouquinho.


A menina fez anos em abril. Lembrou, por um momento, do bolo da festa de cinco anos, uma cara de palhaço que dava pena de comer. Lembrou das mãos da avó segurando seus cabelos ainda molhados ("por que não seca?"), do sorriso da mãe preocupada com os convidados ("não põe o dedo no bolo, filha"), da lágrima do pai, orgulhoso, vendo a filha arriscar pela festa alguns passos de balé ("paulica, vem me dar uma bicoca"). Lindas lembranças. Bom ter do que lembrar. Desse ano a menina só quer esquecer. Voltou pro frio de céu azul. Ouviu, sentiu, chorou, surtou. "Nem tive bolo!" Zerou.


Queria escrever, a menina. Sentou no computador, coca light, cigarros, inspiração e... nada. Tudo preto. "O que tem ele, moço? Cadê minhas coisas? Meus textos tristes? Fotos sorrindo e fotos de lugares? Cartas guardadas? Poesia? Segredos descritos em longas dissertações? Onde moço?" E o moço, palito mastigado no canto da boca, facão na mão: "Deu pobrema menina. queimou a tal da placa mãe. Vais ficar sozinha em abril, nada de amigos online, nada de skype, yogurte, email só rápido na lanhouse. Ah, perdestes quase tudo!" "Não, moço, perdi tudo. deixa ir". E a menina deixou.


Caminhando e cantando, sem lenço e sem documento, o sol surgiu. E na primeira terça feliz do mês de maio a menina cortou a mão. 3 pontos, nova cicatriz marcada no canto esquerdo, da mão, do peito. Cicatriz pra olhar a vida toda e não esquecer que tudo merece um recomeço. Zerada, marcada e amada, menina sorridente sonha e volta a cantar como se fosse a primeira vez. Estranha o microfone na mão costurada e segue como se fosse a penúltima canção. Sempre a penúltima (pra que não tenha fim).




"Dizem que é a última canção, mas eles não nos conhecem, só será a última canção se deixarmos que seja." (Dançando no Escuro - Lars Von Trier).

terça-feira, 1 de abril de 2008

A beleza do Rio ou o dia em que a menina se viu.



Eram muitas pessoas. Bebiam e sorriam dentro de rostos Mac e batons chanel. A menina também, bebia e sorria borrando o batom. Abraços e promessas, beijos sem compromisso, lanchas e passeios em campos de golfe. Zero sentido. "seu vestido é lindo, seu cabelo está horrível, essa é a música que você tem que ouvir, dance assim, coma isto, suba no salto mesmo que te cause bolhas e dor, puxa o cabelo, use muito ouro nessa estação, creme anti-rugas, sorria na foto mesmo que esteja triste, clareie os dentes, brinde, não coma, seja magra, seja linda, tenha 18 anos sempre!"

E a menina olhava pro mar sem conseguir entender seu brilho.

Apertos de mãos frias não fazem sentido. Congelam as veias podendo causar uma parada total do músculo central, que pulsa, fraco. E na última festa do ano, enquanto caminhava sozinha, as 6h da manhã com o sol a nascer sobre o mar de Ipanema, a menina chorou. Que 2008 venha como o sol, quente, brilhante, intenso.

E logo em janeiro a menina beijou. Era como um beijo de filme, alguém gritava corta. Tarde demais pra um coração cansado de sofrer. Do set veio o jantar, a peça, o filme, o cirque du soleil, o vinho e as tardes lindas de chuva sobre o colchão. A menina descabelada, sem maquiagem, havaianas nos pés e o abraço mais quente da pele mais macia. E como se todo o aconchego não bastasse, a menina seguiu esbarrando em corações intensamente cheios de vida e verdade. Alguns já tão especiais na vida dela. A escritora que a fez chorar (D), o ator que a fez sorrir (C) o diretor que a fez sentir (T), o ator/tradutor/diretor (F) que lhe devolveu esperança. E ele, sempre ele, montado na bicicleta entre curvas e esquinas (mal sabe que tem asas, não precisa de artifícios pra voar), lhe devolveu o coração embrulhado carinhosamente num pote de Haagen-Daz.

Hoje, enquanto voltava pra casa, na mesma orla de Ipanema, com o mesmo sol intenso, quente, brilhante, ela sorriu e entendeu o maior de todos os sentidos. A beleza do Rio não é Ipanema, o Cristo, a floresta... é poder sentir-se pela primeira vez em um lugar seu, plena de sentidos, sem carcaças.

A menina agradece.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Perfect Night.


A menina ri para todos que cruzam seu caminho. A menina é alegre e cativante. “Simpática, bonita, querida, um amor... e que coração” dizem os que a conhecem.
A menina deita no travesseiro e chora. Sente-se mais só do que em toda a sua vida.
Ela conquista. O telefone não pára de tocar. Todos querem conhecer, tocar, beijar, viver, usar. Onde passa arranca suspiros, é daquelas que atrai os olhares de todos ao entrar no salão.
Mas, deita no colchão macio e afunda sozinha em lágrimas doídas.
Tem a pele macia. Victoria Secrets diretamente do exterior, parando sobre a prateleira e dançando na pele perfumada da menina. Corpo bonito, mãos de seda, unhas feitas e cabelo macio.
A menina deita e não consegue dormir. Chora a menina.

Por um momento pensa em desistir. Mas recorda os filmes com seus heróis em desfechos emocionantes e finais felizes. Lembra dos sonhos que teve, da força que eles tinham. Contraste com a dura realidade de sentir-se tão só. Ela não consegue mais sonhar. Ela tenta e não consegue porque não acredita em mais nada. Não acredita em Deus (sente-se abandonada), não acredita em amigos (os bons estão longe ou montados em carcaças de sorrisos falsos), não acredita em futuro (uma merda), não acredita em promessas (palavras falsas), não acredita no amor. A menina só consegue acreditar na mentira e na solidão. No prazer que vem, faz cócegas e vai embora.

Submersa no cinza esverdeado dos lençóis ela digita um texto qualquer e vomita do fundo do lodo toda a bosta da vida.
Hoje a menina chora.

quarta-feira, 12 de março de 2008

A menina e seu ipod, ou a vida com trilha sonora (segundo Daniel Olivetto, by Malcon Bauer)






Caminhando pelo centro, com toda a poluição sonora característica das grandes cidades, ela ouve "Fico assim sem você" da Adriana Calcanhoto. E a frase que não sai da cabeça, e que arranca lágrimas ali, no meio daquele povo todo é "Por que é que tem que ser assim?", a mesma frase que a fez chorar na frente do micro baixando a música, "Por que é que tem que ser assim?" E de noite, com um ouvido só que ouvia (porque o outro queria captar o que estava ao seu redor) "... DEITAR NO TEU ABRAÇO, RETOMAR O PEDAÇO QUE FALTA NO MEU CORAÇÃO, EU NÃO EXISTO LONGE DE VOCÊ". E sempre, "por que é que tem que ser assim?".

A menina chora compulsivamente com uma dor maior do que a dor que cabe no peito. A menina come rosquinhas e caminha chorando dentro do óculos de sol. "Por que é que tem que ser assim?"

Muda a música. "Secret heart" da Feist." E seguia acertando os passos para que dançasse caminhando. E pensa na letra: "coração secreto, do que você é feito?" e mais, "Deixe-os entrar no seu coração secreto... tem algum segredo que você está tentando ocultar?É o mesmo que você está morrendo pra revelar? Vá falar a eles como você se sente..."
E a menina tem muita vontade de falar como se sente, como se sentir tivesse explicações, como se pudesse publicar um livro cheio de verdades. Mas as palavras não acompanham o que só os olhos expurgam. Então, o que tem a fazer a menina, é seguir mesmo assim, ipod ditando a trilha sonora das cenas seguintes, e o rosto molhado sempre com as lágrimas de quem falta algo. "Vai ver todo mundo é triste" pensa a menina. E é isso.









quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008






A menina ouviu no andar de baixo a amiga gritar por socorro. Tira o chinelo e acerta a primeira barata da noite. Mais gritos, mais socorro: "são duas e estão na cozinha". e lá vai a menina fuçar dentre os esconderijos escuros: embaixo do fogão, da máquina de lavar roupas, da mala. "São 3", responde a menina depois de esmagar impiedosamente cada um dos insetos. Via-se as entranhas.
A menina não tem medo de baratas, aranhas, mosquitos e abelhas. Até simpatiza com eles imaginando a vida tão ordinária que levam. Quando pequenina conversava com alguns. O mosquito, por exemplo, bichinho simpático que suga o sangue e provoca na pele uma pequena bolinha "é bom de coçar"certo dia lhe disse: "Tenho só um dia de vida. E vc?" ela, "Sou pequenina, mas tenho mais. Quero ver tanta coisa ainda" e olhava pros miudinhos em torno da luz... "bicho burro" pensava e ria.
Um novo grito: "Me ajuda!". E outra barata, dessa vez no quarto. Chineladas após "descanse em paz no mundo dos invertebrados".
O homem está lá, dedetizando tudo. Jogando a modernidade em cada canto perdido da casa da amiga.
Durante a noite a menina teve pesadelos. Acordou como se banho tivesse tomado, como se a janela estivesse fechada, como se lençois fossem cordas. Ar. Quero ar. Respira. Voltou a fuçar os cantos escuros, dessa vez de dentro. A amiga dormia, ninguém pedia socorro. Era ela que gritava, mesmo sem voz, ali, deitada olhando pra nada, como se nada existisse em forma escura. "Não quero chorar, não quero ter medo. Eu sou forte." Gritava "sou forte"! E ninguém ouvia.

Olhou pela janela da sala e viu passearem pelo térreo novas baratas, provavelmente chorando a morte daquelas que partiram. "Eu sou forte" disse a menina pro público, três, pretas e achatadas. "Vou descer e acabar com vocês!"
Ela desceu as escadas com a havaiana na mão esquerda. "Eu sou forte, eu sou forte, eu sou forte" era o mantra que repetia. Olhou de perto, bem pertinho. "Tadinhas...tão assustadas, nem sabem por quê. Correm pra lá e pra cá sem chegar a lugar nenhum. Procuram migalhas e se contentam com um grão de açúcar derrubado por uma criança distraída." Guardou o chinelo. "Amanhã chamo o síndico, esse prédio precisa do veneno dedetizador matador de insetos, do veneno moderno que anestesia e acaba com o que é feio". "Acaba nada" Era uma voz aguda. "Pelo menos esconde" retruca a menina.
Cansada, descabelada e embriagada pelo sono a menina volta pro quarto. Tem medo de dormir e voltar a sonhar. "Eu sou forte" pensa com a força da mais frágil nota de um piano. Na janela aberta (ela ama dormir com a brisa de Ipanema) migalhas de rosquinha doce entretém as mesmas três baratinhas que assistem e aplaudem a menina que agora dorme. Em côro, de patinhas dadas e voz aguda dizem "Sonhe com os anjos menina que ri, sonhe com os anjos."

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Sobre os clássicos.


A menina assiste “E o vento levou” com os olhos por trás das lentes de aros vermelhos, vibra com cada lágrima de Scarlett O’Hara. Olhinhos grudados na tela. O coração batendo mais forte. “Jamais sentirei fome novamente” grita a protagonista. A menina chora.
A menina sente fome, as mãos tremendo ao segurar o copo com suco de abacaxi. Tenho medo, grita “TENHO MEDO”. A chuva cai incessantemente. A janela aberta permite que os pingos grossos molhem a almofada de coração. A menina quer se molhar, quer se entregar, quer se jogar pela janela sem sentido. Ri e chora num curto espaço de tempo, como numa rubrica de Tcheckov.
A menina lê, anda pela casa, fuma outro cigarro, joga fora pela metade “souza cruz é uma merda”. Ainda treme. Ainda grita. Ainda chora e ri como na peça.
Cansada da solidão pega o telefone e disca. “Queria dar boa noite”. É a única coisa que consegue dizer, a única. Sem acreditar na timidez, na paspalhice e na bobeira de qualquer apaixonada segue vendo o filme. “Não tenho paciência pra clássicos hoje”. Pega o telefone, finge que disca, finge que é ouvida: “Queria dizer que não sou tudo o que dizes, que sou ciumenta, sou chata, sou agressiva, tenho fortes TPMs que me fazem jogar vasos chineses contra a parede, que gosto de filmes que ninguém gosta, que tenho preguiça de fazer o que já deveria ter feito, que ouço coisas bregas, que comédia as vezes me deixa entediada, que vou ao banheiro de porta aberta, que choro em comercial mesmo achando piegas, queria dizer tantas coisas, meu cabelo é ruim e esse aplique me incomoda, estou gorda, que já não suporto mais ouvir que sou a bunda do filme, odeio gente metida a rica, odeio gente egocêntrica e que se acha especial por algum motivo, e minha unha do pé está feia e machucada (doendo pra caralho) porque saí correndo que nem uma louca pra te ver na TV. Queria dizer também que gosto de ti. Não sei quanto, não sei como se mede isso, mas tenho vontade de estar ao teu lado sem fazer nada, só abraçados, ou de fazer tudo. Que teu beijo e teu abraço são infinitamente bons, que teu cheiro é o mais doce, perigas ser descoberto por uma indústria de perfumes louca por um lançamento arrebatador. Merda! Queria dizer que também tenho medo, que estou assustada e normalmente já teria pulado fora. Tem umas 5 pessoas interessantíssimas me ligando pra sair, e eu dizendo ‘não’, sem entender ao certo o porquê. Agora queria ouvir você.”
Silêncio. O telefone estava com o descanso de tela, uma foto da menina sorrindo na praia. Fechou o celular pra não gastar bateria e foi pro quarto assistir ao resto do filme ao lado de um balde de pipocas, uma coca zero (preferia a light), só. A campainha toca, era o menino. “Dorme comigo hoje?” E a menina dormiu no lugar mais seu, sorrindo e chorando em curtos intervalos de tempo. Tcheckov adoraria.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Da beleza triste de sentir-se só.






O cachorrinho ganha biscoitos. Todos acham bonitinho, ajudam, tem dó. Mas ninguém tira ele da caixinha de apagar cigarros. A menina senta ao lado e se sente só. Quer fazer companhia ao bichinho, mas o trem já vai partir. Ela apaga o cigarro, sorri, despede-se. A menina dorme durante a viagem. Sonha com estrelas. Acorda chorando.